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Mulheres indígenas atuam em rede pela valorização de saberes ancestrais e pelos biomas brasileiros

A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) foi criada em março deste ano e conta com o apoio da ONU Mulheres. Nela, as mulheres indígenas movimentam uma estratégia política de atuação em rede pelo seu protagonismo, liderança comunitária e incidência política, em meio aos seis biomas brasileiros – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal.

A rede tece fios entre as mulheres dos 305 povos indígenas a partir de encontros on-line regulares, em que as telas de celulares e computadores e conexões de internet são recursos tecnológicos que facilitam interligações ancestrais em tempos de pandemia COVID-19.

"A gente tem a materialização de uma frente nacional, referência para as mulheres indígenas que é a ANMIGA", define uma das lideranças, a antropóloga e doutoranda em Antropologia Braulina Baniwa.

Braulina Baniwa e a geógrafa e doutoranda em Antropologia Social Cristiane Pankararu concederam uma entrevista à ONU Mulheres às vésperas do Dia Internacional da Mulher Indígena e do Dia da Amazônia, ambos celebrados em 5 de setembro. Na conversa, as lideranças rememoraram os passos iniciais da ANMIGA. 

A antropóloga conta que, antes da criação da articulação, já vinham acontecendo plenárias das mulheres, discussão de projetos voltados para os diretos das mulheres. A ideia era reunir na ANMIGA não somente um grupo, mas todas as idades e de todos os conhecimentos. "Por isso, guerreiras da ancestralidade. Vai desde a tia parteira, que nunca foi para a escola, mas tem conhecimento singular que transmite na forma dela à formação indígena. A gente quer que ela se sinta representada", afirma Braulina.

Entre as singularidades de gênero, a antropóloga ressalta os atributos políticos e comunitários das mulheres indígenas como “guardiãs de vários conhecimentos e geração de vida. "Falo a gente, porque somos redes de mulheres”, ressalta. Ela destaca, ainda, a trajetória progressiva do movimento de mulheres indígenas entre as causas dos povos e de gênero. “As mulheres sempre fizeram atividades, como Emergência Indígena, a campanha 'Vacina, Parente' e representação política", conta.

A parceria com a ONU Mulheres existe desde o projeto Voz das Mulheres Indígenas. "Hoje a gente pode dizer, temos sementes em vários lugares a partir desse projeto", destaca. "A partir da consolidação do entendimento de luta por direitos indígenas e enquanto mulheres, pessoas que podem falar por si e reivindicar os seus espaços na construção coletiva no sentido de continuar os nossos conhecimentos. É muito fortalecimento da identidade a partir do território e corpo das mulheres indígenas”, avalia.

Mobilização nacional – De acordo com o censo demográfico 2010, há 896 mil pessoas indígenas no Brasil: 572 mil, ou 63,8 %, viviam na área rural e 517 mil, ou 57,5 %, moravam em terras indígenas oficialmente reconhecidas. Entre esse contingente populacional e distribuição geográfica, as mulheres indígenas vencem barreiras e fortalecem os laços interétnicos em busca de empoderamento político e igualdade de direitos.

“A gente já vem nessa mobilização há muito tempo. Não é de agora essa mobilização de mulheres. Pensamos em um nome que nos identificasse e construímos ao longo das nossas reuniões. Desde que a gente começou a pensar nessa consolidação do movimento de mulheres indígenas, a gente faz reunião toda semana”, explica Cristiane Pankararu.

Ela afirma que as novas tecnologias são aliadas, pois as redes sociais são usadas como instrumento de mobilização. "Descobrimos a internet como uma das principais ferramentas. No ano passado, se tornou a ferramenta porque só amplia as nossas possibilidades de nos comunicarmos e formas de conexão", relata.

Cristiane conta que o movimento indígena já fez diversas mobilizações on-line, como o Acampamento Terra Livre, a Assembleia de Mulheres e a campanha de vacinação liderada por mulheres "Vacina, parente".

"Em março, organizamos o Março das Mulheres Originárias, das mulheres-bioma", explica. "Somos mulheres-semente, mulheres-água, mulheres-raízes, mulheres-tronco, árvores, frutos, folhas. É isso o que falamos sobre Mulheres Originárias. A mãe do Brasil é indígena”.

No dia 9 de setembro, o movimento de mulheres indígenas realizará a segunda marcha nacional, na capital federal, em seguimento à primeira ocorrida no ano de 2019. “Em reunião on-line, decidimos que faríamos a marcha presencialmente. Estamos nessa Marcha, com o tema 'Mulheres Originárias reflorestando mentes para a cura da Terra', porque é essa busca de sensibilidade, empatia, respeito, valorização da diferença, diversidade sociocultural, socioespacial, que é o nosso país. Cabe todo mundo. O Sol nasce para todos e todas”, adiciona Cristiane Pankararu.

Braulina Baniwa conta que a ANMIGA não tem coordenação executiva. "Ela é de toda a rede de mulheres. E a nossa organização se concentra em reuniões coletivas, para a gente tomar todos os processsos de decisão". 

"A ANMIGA trouxe as pessoas que se sentem representadas por esse lugar. Já reunimos mais de 4 mil mulheres on-line", explica Braulina. 

A articulação está agora mapeando redes, coletivos para ouvir o que fazem nas suas comunidades e o que precisam para se fortalecer. Braulina relata que, às vezes, as discussões do centro não chegam às bases. Por isso, a ANMIGA conta com comunicadoras indígenas, que são fonte de informação para chegar às comunidades.

Da ONU Brasil (08/09/21)